A MUDANÇA

Conto biográfico de Darlan Veit

CONTOS

8/14/20268 min read

"A reserva natural do Taim se revelou um tributo à vida animal. A estrada era bem alta e transformava o asfalto em uma ponte sobre fauna e flora. Os campos e banhados não ligavam para essa cicatriz de três metros de altura e vários quilômetros de extensão. Os rebanhos de capivaras superavam os de gado. Pássaros de vários tamanhos e cores abriam suas asas e permaneciam imóveis como estátuas. Os moirões de cerca eram seus pedestais e o sol, o holofote. Sim, a natureza também se exibe e cria museus vivos degustando o presente. Tudo parecia maior, gaviões tinham o tamanho de águias, lagartixas domésticas viravam jacarés de verdade, ratos viravam galinhas e galinhas viravam emas. A baixa velocidade trouxe grande recompensa. Mesmo com tantos animais, o silêncio predominava. O olhar se perdia na distância e a calma encontrava o vazio.

Paz.

Escurecia e as poucas nuvens forneciam anteparos para o avermelhado anunciar a noite. As estrelas despontaram e o Cruzeiro do Sul abençoava a jornada. Passamos pela Aduana Brasileira para pedir informação, nós deveríamos usar o sistema online para registrar a saída em definitivo do país. A Aduana Uruguaia não revelou problemas, carimbamos passaportes, a documentação das vacinas do Scooby foi conferida, os carros foram brevemente inspecionados e nossa muamba de artigos domésticos foi autorizada a ingressar em novos territórios. Faltavam alguns quilômetros até a pousada reservada pela internet. Dirigimos cerca de 40km à noite. Foi o único trecho que fizemos isso em um total de três mil quilômetros e seis pernadas de mudança. Nos Pampas, a escuridão noturna ganha braços e boca, estávamos na garganta das trevas e os faróis rompiam o breu absoluto. De repente, o asfalto, que talvez fosse concreto, alargou e a marcação mudou. Viajamos sobre uma pista de aviões. A adaptação fazia a estrada polivalente e embalava a sensação de voar à menos de 100km/h."

Colônia do Sacramento - Dia 3

Alguns trechos do conto "A Mudança"

"Sempre tivemos problemas com frases feitas. Tanto eu como minha esposa Samantha e nosso cachorro Scooby temos dificuldades com padrões. Ainda assim, existe um pensamento que resume bem nosso estilo de vida. “Só a mudança é permanente.” Eu já fui dentista, enxadrista, professor e nossa viagem me ligou ao sonho de ser escritor. A Sá, apelido da minha amada, já foi secretária, arquiteta e virou fotógrafa. Profissionalmente, nós mudamos e nosso bicho de estimação era a exceção. O Scooby, nosso Shih-tzu, nunca trabalhou e para sempre seria nossa criança. Ele completava a roda do poder familiar, eu mandava nele, ele mandava na Sá e a Sá mandava em mim. Nossa hierarquia doméstica era, portanto, composta de três poderes: o fraterno, o materno e o filial. Ao invés de variar essa roda familiar, e para viver a transformação, decidimos jogar tudo em dois carros e mudar para outro país. Afinal, só a mudança permanece.

Nós entráramos com o pedido de visto argentino para justificar as bagagens socadas nos veículos. Nossos passaportes confirmariam o discurso e não seríamos confundidos com muambeiros. A entrevista com o cônsul argentino fora fácil, ele nos entendera. Novo Hamburgo, nossa cidade natal, não lhe parecera aconchegante. Recentemente, duas crianças argentinas teriam sido sacrificadas em um ritual de magia negra e envolvido o cônsul em imbróglios diplomáticos. Por isso, mais os nossos passaportes de viajantes bem carimbados, o cônsul viu a estampa de cidadãos globais em nossas testas antes de protocolar os vistos para a mudança. Depois de alguns anos vivendo em Florianópolis, resolvidos os trâmites burocráticos, faltavam alguns detalhes técnicos com relação a colocar as coisas dentro dos carros e partir.

–Ficam os anéis e vão os dedos. Exclamei.

–Ficam os anéis e vão os doidos. Rebateu nossa segunda mãe.

Marlete era mais do que amiga, mais do que dona do imóvel que alugávamos, mais do que vizinha, mais do que síndica. A mulher de traços fortes facilitara nossa empreitada ao comprar muitos de nossos pertences. Além disso, ela nos ajudava a empacotar as coisas na véspera da saída de Florianópolis quando percebemos que o desapego teria de ser ainda maior. Eu tentei parodiar a frase “Vão os anéis e ficam os dedos” e nossa ajudante melhorou a ironia. Quadros, eletrodomésticos, uma estante, roupas, sapatos, dvds e duas bicicletas completavam a metáfora para os “anéis”. O reboque de bicicletas viajou vazio, o dispositivo não era apropriado para nossas bikes e optamos pela segurança. Enjambrar em uma mudança de milhares de quilômetros traria perigos para os “dedos” ou os “doidos”. Fossem dedos ou doidos, a metáfora cabia a nós. Sim, eu e a Sá somos doidos e Scooby, o conservador da família, tivera seu voto vencido.

Com algum atraso, o horário de partida planejado para as oito da manhã virou nove e meia, partimos em dois carros buzinando para os vizinhos e abanando despedidas. O condomínio era formado por casas e apartamentos de um ou dois quartos, um banheiro e uma sala anexa à cozinha. Nosso ex-lar ficava no final de um pequeno beco. A rua privada aos moradores tinha um portão antes de encontrar a primeira via pública. Cerca de oitenta metros deixaram vários conhecidos para trás. Marlete assumiu a função de guardiã dos itens deixados. Quem mais administraria nossa pequena herança do que nossa segunda mãe?

Foram os doidos e ficaram os anéis."

"Chegamos à Punta del Diablo. A pousada era próxima da praia, o barulho do mar colaborou com o sono. Já os mosquitos, não. Eles se comportaram como diabos e sugaram nosso sangue. Dormimos e as picadas não trouxeram pesadelos. No dia seguinte, fomos ver o mar antes de seguir viagem. Descobrimos o porquê da nomenclatura do lugar. A Ponta do Diabo não tem nada a ver com mosquitos se comportando como demônios. A geografia caprichosamente esculpiu rochas e areias no formato de um tridente. Eu preferiria chamar a localidade de Punta del Netuno. A referência ao deus dos mares fazia mais sentido, ele também tinha um tridente e comandava os oceanos. A propósito, a ondulação era bela. A espuma branca aparecia lentamente enquanto a parede de água se oferecia para qualquer surfista que ousasse enfrentar o mar gélido. Nenhum deles o fazia e eu não era mais um surfista. Seguimos.

Nossa próxima parada seria junto a outro mar menos salgado, o Mar del Plata. Nós rumamos ao sudoeste e havia mais árvores competindo com os campos. Pinheiros nos faziam olhar para cima. Mais uma vez, pelo terceiro dia seguido, o azul do céu e o sol nos favoreciam. Sentíamos o cheiro do mar. A América do Sul apresenta uma concavidade que recua rumo ao sudoeste também. Isso permitia que as águas fossem uma presença constante em nossa mudança para a Patagônia e a Cordilheira dos Andes, pelo menos até então. Sinaleiras – ou semáforos – reduziram a velocidade média nas imediações de Montevidéu. A gasolina foi cara e a capital uruguaia não despertou paixão à primeira vista. O ponto inesquecível do trecho de quase 500km foi no final, a entrada em Colonia del Sacramento. As Palmeiras Imperiais eram mais grossas e altas do que colunas romanas ou gregas. A arquitetura natural gerava um corredor arborizado de quilômetros. Os idealizadores desse portal de entrada plantaram as árvores e morreram antes de contemplar, na plenitude, a beleza de sua visão de futuro.

Dormimos em um hotel de 1924. O antigo nos serviu perfeitamente. Acordamos às cinco. Às seis e vinte, estacionamos junto à balsa. Fizemos a imigração e nossos passaportes receberam o carimbo argentino. Os carros seriam conferidos no porto de Buenos Aires. Foi estranho dirigir barco adentro, senti um terremoto de baixa magnitude, mas seria coisa da imaginação, eu nunca sentira o chão tremer, não de verdade. Com ou sem terremoto, o chão movia. Madeira, ferro e aço sobre água são mais macios do que asfalto sobre rochas. Sobrava espaço no interior da balsa. Às sete da manhã, a escuridão era testemunha dos poucos motoristas rompendo a fronteira Uruguai – Argentina. Estacionei e recebi a ordem de deixar o carro com marcha engatada e puxar bem o freio de mão. Obedeci sem perguntar motivos. Descemos dos veículos e os trancamos. Subimos ao setor de passageiros. Depois da escada, as poltronas estilo avião encerravam as semelhanças com uma aeronave ali. A balsa era muito mais larga do que comprida. Além disso, a navegação foi bem mais lenta do que um voo. O avermelhado do horizonte veio antes do azul do céu e do sol. Além do amanhecer em meio ao Mar del Plata, um vídeo mostrava as belezas naturais do país que adentrávamos. Uma hora depois da partida no Uruguai, chegamos ao lado argentino.

Sair da embarcação restituiu a sensação de terra firme sob as rodas. Percorremos curta distância dentro do porto e a checagem dos veículos foi rápida. Tudo ficou fácil depois de mostrar passaportes carimbados e vistos de residentes argentinos. Nossos documentos conferiam com nossos discursos e posses. No entanto, Scooby latiu impaciência do mesmo jeito. Por sorte, a rebeldia dele não foi vista como insubordinação pelas autoridades. Para quem conhecia Porto Alegre e nunca estivera em Buenos Aires como eu, a capital argentina pareceu bem maior, mais antiga e mais hispânica. Os traços europeus da arquitetura permitiam uma viagem no tempo além de na distância. Colunas, estátuas, fontes, igrejas e prédios logo ficaram para trás. Os pedágios foram quase tão frequentes quanto os monumentos históricos. De qualquer forma, foi barato ver tanta beleza.

Antes das nove da manhã, já cruzáramos a segunda fronteira da jornada e rumávamos em direção à Patagônia. O limite de velocidade era 80km por hora. Dirigíamos a 100 e os hermanos achavam pouco. Eles nos ultrapassavam com facilidade. Não é preconceito afirmar que argentinos dirigem bem mais rápido do que brasileiros, é verdade mensurável em números. Mesmo velozes, eles não se atiravam em ultrapassagens inconsequentes. Talvez seja correto afirmar que eles dirigem melhor também. Havia muito mais movimento sobre o asfalto nesse trecho entre Buenos Aires e Santa Rosa do que em todos os trechos anteriores. A estrada não era duplicada e o tráfego de veículos e caminhões contrastava com a paz dos Pampas. A gasolina era mais barata do que no Brasil, mas calibrar pneus tinha custo. Scooby fez amigos em cada posto que parou. Ele também deixou marcas de sua passagem para outros amigos caninos farejarem. Para os cachorros, sentir o cheiro das coisas é algo literal. Para os humanos, é algo repleto de analogias, sentíamos o cheiro da Patagônia."

viajamos em Julho de 2018. Ao todo, foram 6 dias de estrada. A janela de sol era curta e optamos pela segurança dirigindo de dia.

Em solo patagônico - Dia 5

Piedra del Aguila - Sá e o Scooby - Dia 6

Na estrada em La Pampa - Dia 4

Amanhecer Punta del Diablo - Dia 3

Reserva do Taim - Dia 2