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Para refletir no seu próprio ritmo


HISTÓRIAS CURTAS PARA UMA VIDA LONGA
Histórias Curtas para uma Vida Longa é uma coleção de contos unidos pela interação entre um velho, Inácio, e a Morte. Eles entrelaçam a fronteira entre um livro de contos e um romance da mesma forma que a vida e a morte misturam seus limites. Ao longo da aventura dos dois personagens principais, múltiplas fontes de informação amenizam a tirania do nascer e falecer sobre a experiência do existir.
Com uma estrutura única que transita com fluidez entre a concisão dos contos e a força narrativa de um romance, Histórias Curtas para uma Vida Longa desafia o rigor da mortalidade. Através de mentes, memórias e ensinamentos que atravessam eras, Darlan Veit constrói uma obra envolvente sobre o significado mais profundo de existir.
Publicação: Editora V8
Data: 20/10/2018
Páginas: 224
Uma conversa franca com a Morte. Uma celebração inesquecível da Vida.


Um entrelaçar de histórias onde nascimento e finitude perdem seu caráter absoluto.
ÁRVORE IDEOLÓGICA
Era uma vez um jovem chamado Capitalismo. Capitalismo odiava apelidos e amava mulheres. Apesar de seu apetite feminino plural, a Democracia o fisgou em especial. Como ele, ela repelia apelidos. Chamá-la de Demos era de um populismo brega capaz de afastá-la de qualquer conversa. Democracia era uma dama que, em tese, não se seduzia facilmente com presentes e promessas frívolas. Por isso, o amante pretendente a amado, mestre nas artes da conquista, preferiu deixar de lado as flores e os cartões apaixonados. O romance começou em uma festa eleitoral. Ele a abordou e, depois de uma rápida conversa, decidiram fazer algo juntos pela primeira vez. Assim, mesmo não sendo fumantes, ambos saíram para fumar um cigarro. De longe, muitos eleitores disseram que ela ansiava por dinheiro e ele precisava da diversidade bem-humorada dela. Afinal, o haviam chamado de Karlpital. E já sabemos o que ele pensava sobre apelidos.
Como falar das próprias amarguras não iria seduzir ninguém. A conversa descambou para as desventuras de outro casal. O Socialismo e a Tirania. Na verdade, eles nem tinham certeza que os dois estavam casados, mas quem disse que uma fofoquinha entre cantadas precisa ser 100% verdadeira? A Democracia afirmou conhecer o Socialismo e foi além. Ele já tentara pegá-la pra amante na promessa de deixar a esposa em breve. Capitalismo não ouviu o resto da verdade. Ela se deixara levar e achara a visão de mundo socialista superencantadora. E o pior, a Democracia experimentara idílicos orgasmos múltiplos. Obviamente, isso não era coisa de se falar pro novo pretendente de carteira cheia.
Capitalismo, por sua vez, afirmou conhecer Tirania somente de vista e a achava arrogante demais. Ele a descreveu tão bem e por tanto tempo que a Democracia achou que eles tinham ou tiveram algo mais. Mas quem é que iria sentir ciúmes antes do primeiro beijo? O sedutor endinheirado falou muito, mas não contou tudo. Seria muito inconveniente informar do sexo selvagem com a tirana. Mencionar os sonhos ninfomaníacos e sadomasoquistas? Nem pensar. Jamais ele admitiria ter saudade daquela deliciosa dominação, ou a ressaca moral nos dias, meses e até anos seguintes.
O que era para ser o tempo de um cigarro, virou dois. Então, Capitalismo ofereceu uns drinks à Democracia que só bebia socialmente. Foi paixão à primeira vista! Brindaram a isso sem pudor de admitir a visão dupla devido ao excesso de álcool. Já despudorado, Capitalismo pediu o telefone da Democracia e ela, também embriagada, aceitou ir pra casa dele. O mal-entendido fez o macho lidar com a conta imediatamente. Se ele pagou, pendurou, ou escambou, nenhum eleitor sabe. Ela enrolara a língua e agora era tarde demais pra voltar atrás. As pessoas adoravam falar dela mesmo. Democraticamente, ela deu luz verde e foi além.
Foi o engano mais delicioso da história. Ao menos foi o que eles acharam naquele dia seguinte de carícias infinitas. Os dois, mesmo livres da visão dupla, sentiam-se como um grupo perfeito. Queriam casar, ter filhos para conquistar mais terras. Quantos frutos benditos se multiplicariam fazendo este mundo um lugar melhor para se viver?
Como se consideravam pessoas de ação – e não sonhadores como o Socialismo e a Tirania – fizeram acontecer. Aquela coisa de uma noite virou paixão, namoro, noivado e casamento. Logo veio a primeira filha, Liberdade. Agora, Capitalismo tinha o desafio de educar. Que responsabilidade! Infelizmente, Liberdade não dava lucro. Então, Capitalismo precisou criar a maior lei de mercado: primeiro eu, depois minha família, daí os meus amigos até o mais distante dos povos. Ele não publicou a regra egoísta. O pai aplicou a norma de forma silenciosa na tentativa de sustentar a filha adolescente. Ele não era louco de criar a Liberdade livre, leve e solta naquele mundo cheio de gente brigando por dinheiro. No meio disso tudo, a protegida fazia coisas igualmente impublicáveis.
A Democracia gostava das regras desde que pudesse se esquivar de praticá-las. Sem querer, a mãe passou o costume para a Liberdade. A filha protegida pelo individualismo paterno e pela hipocrisia materna virou uma mulher mimada e cara. O pai culpou a moleza da mãe e a mãe culpou a ausência do pai que só queria saber de fazer riqueza. Quanta instabilidade doméstica! De casal perfeito, Capitalismo e Democracia passaram a ser a mais surpreendente incompatibilidade do século XXI. O que esperar de um romance de dois não fumantes que flertam saindo juntos para fumar? Muita presunção e exagero do politicamente correto. Nas brigas do casal, as ofensas tornaram-se recorrentes. Tanto que os xingamentos favoritos caíram nos ouvidos de toda a vizinhança, ele egocêntrico e ela muito cara.
Já com um corpão de mulherão, Liberdade foi para a Universidade. Que surpresa! Ela sentou logo ao lado do Utópico. Quanta ironia do destino, Utópico era filho do Socialismo e da Tirania. Sim, eles também se casaram e tiveram um filho. Utópico deixou todos com lágrimas nos olhos com suas estórias familiares. Mais difícil do que lidar com o peso do próprio nome – que, de fato, significa coisa alguma – era lidar com a sombra do pai. Um mito. Bem diferente do homem chefe do lar presenciado por ele. Já quanto à fama da mãe de ninfomaníaca sadomasoquista, ele apenas garantiu que o pai gritava mais, muito mais. As lágrimas deixaram a Liberdade molhadinha. Utópico, ao contrário do que muitos diziam, não era ingênuo. Ele aproveitou a oportunidade.
Aquela sim foi uma transa épica! Liberdade e Utópico gozaram os limites idílicos do lugar nenhum. Apaixonados, queriam saber as auguras da relação. Sem perder tempo, eles consultaram a sabedoria da vidente Monarquia. Apesar de velha e com fama de ultrapassada, ela continuava produzindo frutos bem mais lúcidos do que a Democracia, a Tirania, o Capitalismo e o Socialismo juntos. Curiosos quanto ao futuro da relação, os universitários descobriram que eram primos. Sim, a vidente era simplesmente a avó de ambos. Que surpresa! A velha dava gargalhadas ao ver a cara embasbacada dos dois. Na tentativa de entender a surpreendente árvore genealógica deles, os jovens apenas escutaram o nome do avô, Absoluto.
Liberdade e Utópico teimaram. Eles insistiram porque saber do avô não esclarecia nada. Monarquia sorria enquanto os apaixonados apontavam os múltiplos traços da avó nos pais. Entretanto, ele discordava do que ela dizia e vice-versa. A velha só parou de achar engraçado quando a neta mencionou o Mercantilismo. Utópico lembrou das aulas de história e acusou a Monarquia de ter traído o Absoluto com o amante Mercantilismo. A vidente idosa confessou seus pecados e assumiu que o Capital e a Tirania eram filhos dela com pais diferentes. Ele era fruto da Monarquia com o Mercantilismo, e ela, da Monarquia com o Absoluto. Mesmo em choque, os netos não culparam a avó. O avô reinava nas camas de outras mulheres também e tais romances ajudaram a Monarquia a esconder a barriga e entregar o bebê prematuro, Capital, para o pai, Mercantilismo, criá-lo perambulando pelo mundo.
Na despedida, a vidente idosa demonstrou lucidez perfeita. Afinal de contas, a curiosidade inicial era quanto ao futuro do romance e não ao passado. Ser primos não traria maus presságios. A realeza mantivera relações consanguíneas por séculos. Monarquia, inspirada pela sabedoria do tempo, profetizou que Liberdade e Utópico teriam um filho. A avó, sem se importar com o politicamente correto, encomendou ainda o nome, Futuro. Futuro seria o único nome capaz de manter o universo fluindo positivamente. Os jovens gostaram tanto da profecia que não ouviram o último aviso. A criança só deveria vir depois da formatura deles.
O tarde demais virou cedo demais. Liberdade e Utópico haviam concebido os trigêmeos antes mesmo de procurar a avó, digo, bisavó vidente. Se existe uma coisa que une uma família, é a chegada de uma nova vida. Que dirá três bebês!? Talvez por isso, os novos avós – Capital, Democracia, Socialismo e Tirania – não implicaram com a irresponsabilidade causada pelo excesso de hormônios, os erros proféticos ou os segredos do passado. Nove meses depois do encontro com a Monarquia, Liberdade deu à luz dois meninos e uma menina. O jovem casal, que reuniu os parentes políticos, fez questão de escolher sozinho os dois nomes faltantes. Em uma família complicada como aquela, chamar de Futuro um bebê instantes mais velho do que a Realidade e o Presente era completamente normal. Ninguém precisaria de adivinhos para prever um batizado histórico. Todos estavam lá, os vivos e os mortos.
O padre, antes de batizar o Futuro, a Realidade e o Presente, se apresentou. Ele se chamava Teocracia. A família política achou que era piada e caiu na gargalhada. Até os falecidos Absoluto e Mercantilismo abraçaram-se espiritualmente entre convulsões de felicidade. O único que não riu foi o padre. Monarquia foi a primeira a perceber a gafe coletiva na casa do Senhor.
–Que coisa mais politicamente incorreta! Gritou a bisavó.
A turma se aquietou, menos os bebês. Esses escancaravam gengivas sem dentes a torto e a direito. Mesmo quando Teocracia usou mais água do que de costume para afogar aqueles sorrisos, o Futuro, a Realidade e o Presente perseveraram na alegria. Por bem ou por mal, Absoluto cochichou para o amigo de alma, Mercantilismo:
–O que é mais politicamente incorreto do que rir do nome do padre dentro da igreja?
–Dizer que ele tem nome de mulher e que a mesma palavra feminina caracteriza o regime de governo mais machista e intolerante de todos os tempos. Rebateu o pai do Capital.
Os dois compartilharam seus talentos de comediante ao longo da cerimônia. Eles imaginaram que ninguém os via, ou ouvia, pois estavam mortos. Ironicamente, Teocracia escutara tudo. Ao final, enquanto Capitalismo, Democracia, Socialismo e Tirania disputavam quem levaria os netos para a festa de batizado, o padre – que também tinha idade avançada – abraçou a Monarquia pela cintura e sussurrou algo no ouvido dela. A velha demonstrou agilidade para descartar as outras ofertas de carona e pôs sua mão na cintura do Teocracia.
O padre sentia as carnes da vidente coladas às suas quando ele se virou para o vazio material abrigando os dois falecidos. Assim, olhando para o Absoluto e o Mercantilismo, Teocracia se vingou:
–Pelo menos, eu estou vivo!
Os mortos iriam matar o sacerdote se não vissem uma mulher com longos fios de cabelo branco cobrindo parte de seu corpo escultural nu, descendo dos céus. Ela ficou parada à frente deles até que a igreja se esvaziou e o batizado triplo virou festa dos vivos.
–Quem é você? Perguntou Mercantilismo.
–Eu sou Deus.
–Deus!? Exclamaram os dois mortos.
–Sim, Deus!
–E o quê o Senho..., quero dizer, Senhora está fazendo aqui?
–Ah! Eu sempre aguentei muitas coisas dos humanos, mas vai que alguém diz que essa maldita árvore ideológica é invenção minha!?
Décimo lugar na categoria contos no Concurso Cataratas de Contos e Poesias, com mais de 1500 escritores inscritos
CAPÍTULO INTEGRANTE DO LIVRO HISTÓRIAS CURTAS PARA UMA VIDA LONGA
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O título unificador do conjunto da obra literária de Darlan Veit é: A Arte de Viver. Seja nos enigmáticos livros de contos, seja nos empolgantes legados de ficção histórica ou realismo mágico, seja na tradução de velhos clássicos com mensagens joviais, as páginas estão sempre grávidas de sabedoria mesmo quando as personagens mostram aos leitores como NÃO viver.
Eis aqui um catálogo ecoando as vozes das musas da literatura: “leia antes de morrer!”.
Todos os romances, contos e traduções de Darlan Veit, disponíveis em formato digital.
