Sina de Cronos - Capítulo 1

O tempo não apenas passa, ele cobra. Mergulhe no universo de Sina de Cronos e confira em primeira mão o Capítulo 1. Acomode-se, prepare o café e se deixe envolver pelas primeiras páginas dessa jornada.

7/31/20269 min read

SINA DE CRONOS - CAPÍTULO 1

CÚPULA DA TERRA E O CICLISTA

A ciência é um corpo de conhecimento a narrar uma história fantástica. Quanto mais se descobre, mais se percebe que o mistério – assim como o Universo – expande além do alcance humano. Deuses desconhecidos permeiam galáxias com a magia dos buracos negros, pontos fascinantes misturando o outrora, o agora e a demora no mesmo paradoxo. Pontos fascinantes a misturar lá, aqui, ali e acolá na mesma poesia, onde a curvatura espaço-tempo é infinita. Os cientistas desenvolveram o princípio das incertezas para lidar com essas fendas esculpidas por Cronos e sua foice. O deus do tempo existe, pouco importa que o homem prefira chamar a cronologia... de um método de descrever transformações.

Há 14 bilhões de anos, surgia o Universo. Universo que os humaninhos medem apenas 5% da matéria. Do restante, eles especulam que 27% seria matéria escura e 68% seria energia escura. Tais especulações ajudam os humaninhos a criar um falso senso de segurança frente ao poder de Cronos. Há 4,5 bilhões de anos, surgia a Terra, um planetinha diferente de zilhões de outros. Há 3,7 bilhões de anos, surgia a vida. Num sopro misterioso, a química inorgânica saltou ao arranjo orgânico sob o olhar atento do deus do tempo. Há 14 milhões de anos, surgia o homem ou algo parecido. O Kenyapithecus antecedeu humanos e macacos modernos. A partir da África, se espalhou pelo mundo enquanto desenvolvia o domínio dos primatas sobre a natureza. O Homo habilis existiu entre 2,4 e 1,5 milhões de anos atrás. O Homo erectus, entre 1,8 milhões e 300 mil anos. O Homo neanderthalensis, entre 230 e 30 mil anos. Finalmente, o Homo sapiens – que surgiu há pouco mais de 120 mil anos e foi contemporâneo do neanderthalensis – venceu a jornada evolutiva justamente porque desenvolveu sua linguagem, se reuniu em grupos maiores e soube criar estórias racionalmente irracionais para lidar com as intempéries da vida.

Bem antes de criar a escrita, há 20 mil anos, o homem adentrou a América a partir da Beríngia, uma região que unia o Alaska à Rússia, de modo que caminhantes nômades pudessem cruzar o Mar de Bering a pé. Quando a escrita dividiu a Pré-História (ou História dos Povos Pré-Letrados) da História, há 4 mil anos, o Homo sapiens já se espalhara pela América do Sul como se buscasse o gelo antártico.

Ao longo de todo esse processo, as oscilações climáticas tiveram Cronos, asteroides e vulcões como principais agentes de transformações. Os humaninhos precisariam chegar às portas do ano 2000 depois de Cristo para perceber o quão racionalmente irracionais eles são. Foi então que vislumbraram a antropogenia climática, o homem assumia seu protagonismo, mas acelerava o aquecimento do planeta.

Em 1992, no Rio de Janeiro, duas pequenas cidades surgiram, ambas repletas de boas intenções e preocupadas com a mesma causa, o Aquecimento Global. De fato, o aquecimento constituía no sintoma mais marcante das Mudanças Climáticas, e as transformações do clima obrigavam os cientistas a usar o tom de profetas inconvenientes. Algo precisava ser feito, algo que unisse todos os povos e nações a favor do desenvolvimento sustentável, fosse lá o que isso fosse. Ao todo, mais de 20 mil pessoas se dividiram em dois locais de discussões. No Riocentro, um centro de convenções moderno, junto à Lagoa de Jacarepaguá, cerca de 200 chefes de estado e líderes da ONU – Organização das Nações Unidas –, em companhia de 9 mil jornalistas dos mais diversos países, fizeram malabarismos com palavras frente às câmeras de televisão. No Aterro do Flamengo, mais de 10 mil pessoas – também de múltiplas etnias – acamparam no Fórum Global, a versão da sociedade civil a compor a mesma cúpula, a Cúpula da Terra.

Cerca de 35 quilômetros separavam os dois locais e ninguém zanzou mais de um pro outro, e do outro pro um, do que José Mendes da Silva. Por razões práticas, todos o chamavam de Mendes. Em qualquer ponto do Brasil, o nome José, ou o sobrenome Silva, fazem pouco para distinguir uma pessoa. Mendes nascera em 1972, no mesmo dia 5 de junho que iniciara a Conferência de Estocolmo, a primeira reunião oficial de lideranças políticas a debater o impacto do homem sobre o meio ambiente. Mendes sabia que a Cúpula da Terra era um desdobramento dessa conferência, e sua vida desenhava o mesmo arco temporal de vinte anos. Tempo suficiente para ele crescer e acumular aptidões físicas e intelectuais.

Mendes tinha as panturrilhas, coxas e nádegas de um ciclista – o que ele era – e o conhecimento de um gestor de políticas públicas – o que ele não era. Embora os braços não fossem agraciados com a potência muscular dos membros inferiores, qualquer punho fechado advindo da altura de 1,80m impõe algum respeito. E ele parecia ter mais do que os seus 1,80m. A pele negra destacava o único detalhe frágil de sua aparência, os óculos de cor prata, com armações finas como um arame. Mendes estudava biologia na UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro, que por sinal fica próxima ao Aterro do Flamengo, local do Fórum Global – e estagiava na Futuro Verde, uma ONG – Organização não Governamental – que promovia a consciência ambiental entre os moradores ao norte da Lagoa de Jacarepaguá, nas imediações do Riocentro, local que reunia presidentes e afins. Portanto, o ciclista Mendes vivia e trabalhava perto do fuzuê televisivo, mas estudava junto ao badalado acampamento.

Mendes não era de briga, “– eu dou um boi pra não brigar e uma boiada pra sair de qualquer violência!”. Pode parecer exagero, mas ele gostava de dizer isso para enfatizar que abdicar de carne de vaca ajudaria a liberar menos carbono na atmosfera e, por conseguinte, combateria o Aquecimento Global. Ele demorara a encontrar uma causa por que lutar ou o propósito de sua vida, o jovem negro rodara duas vezes ao longo do primeiro grau, mas isso não tivera relação com inteligência ou preguiça.

Mendes perdera o pai na guerra do tráfico em Cidade de Deus. Cidade de Deus é um bairro carioca maior do que muitos municípios brasileiros, e sua guerra matara mais do que a Guerra das Malvinas. Matara e mata. Diferentemente das batalhas bem ao sul do Rio, os conflitos em Cidade de Deus não terminaram, diminuíram, mas não terminaram. Mendes residia na mesma casa simples da infância pobre, órfã de pai, em meio à criminalidade de uma minoria e o heroísmo da maioria.

Mendes se transformou num guerreiro que não dá socos nem pontapés, muito menos atira. Ele falava e procurava aplicar verdades científicas ao debater com os demais ambientalistas.

A Energia Nuclear não deveria estar sendo combat... Ele nem conseguia completar suas frases.

Sustentabilidade não é matemática, Mendes. É sentimento, é comunidade, é desapego... Rebatiam os membros de outras ONGs.

E Mendes mergulhava em reticências para não alimentar a fama de doidivanas.

A tônica das discussões do Fórum girava em torno da necessidade de energias renováveis e limpas. Ambientalistas execravam a poluição do ar, o consumo do petróleo e a energia nuclear. A ênfase nas dificuldades relativas à destinação do lixo tóxico cegava muita gente, mas não todos. Mendes era um dos poucos a conhecer os números que colocavam a energia nuclear como aliada da redução do carbono na atmosfera e, assim, contrária ao aquecimento do planeta. No entanto, a voz do ciclista era mais abafada do que ouvida. Tanto que coube a ele imprimir e transportar cartinhas de crianças de todo o mundo.

Em 1992, uma nova forma de correspondência virtual prometia – em um futuro não muito distante – transformar correios em serviço de entrega de coisas, não de cartas. Foi o advento dos e-mails, sendo o “e” referente a “eletrônico” e “mail” referente a correio. No tempo de um estalar de dedos, ou melhor, no intervalo que ondas eletromagnéticas precisavam para unir dois pontos do planeta através de um satélite no espaço, um texto viajava no globo. Ora, uma vez que ondas eletromagnéticas viajam à velocidade da luz e, num piscar de olhos, a luz dá sete voltas em torno da Terra, considerando tamanha rapidez, enviar um texto do lá ao acolá virava algo digno da magia dos deuses.

De fato, havia certa limitação entre os tais pontos que as cartas modernas podiam se teletransportar. Uma rede internacional de comunicações já unia muitas universidades ao redor do mundo, era a internet. Outra inovação que prometia virar realidade dentro de todos os lares. No futuro, as moradias teriam mais do que luz elétrica, água encanada e esgoto. No futuro, o mundo doméstico disporia de internet.

No presente de 1992, Mendes gostou da missão que recebeu do presidente do Fórum. De posse de um papel com as anotações do endereço eletrônico e senha, ele zarpou do Aterro do Flamengo em direção à UFRJ.

–É pra imprimir todos os e-mails!? Mendes bradou e sorriu, como se a palavra e-mails fizesse ecos à frente do tempo.

–Tá maluco!? Deve ter milhares, são muitas crianças querendo unir vozes com essa menina do Canadá... qual é mesmo o nome dela?

–Severn Suzuki.

–Isso mesmo, enfim, imprime umas trinta e decora os corredores do Riocentro, perto de onde ela estiver discursando.

A canadense faria um discurso infantil para puxar as orelhas dos adultos. Adultos consumistas e preguiçosos, a ponto de ficar horas dentro de um carro congestionado em engarrafamento.

Em pleno junho, o inverno carioca passaria por verão para muitos dos visitantes do hemisfério norte. Antes do almoço, Mendes – que gostava da estação invernal por ser mais seca e amena – faria o mesmo trajeto pela segunda vez no dia. Ele acordara em sua casa em Cidade de Deus, tomara um banho gelado, comera seu desjejum e passara no Riocentro em companhia de dezenas de ciclistas. Antes das oito da manhã, ele participara de uma pedalada em prol de encorajar o uso de bicicletas em detrimento dos carros. Em seguida, como de costume, usara sua bike para costear a Lagoa de Jacarepaguá, dobrara à direita rumo à Barra da Tijuca e, então, virara à esquerda em direção à Rocinha. O mar, ao sul, lhe fazia companhia.

O Oceano Atlântico, ao longo de bilhões de anos repletos de idas e vindas, subidas e descidas, resolvera estrangular o Brasil bem às custas do Estado do Rio de Janeiro.

Com efeito, o estrangulamento que Atlântico e Pacífico dão à América do Sul aponta para o único continente congelado do planeta. Tanto o Brasil quanto a América do Sul lembram setas indicando a Antártica.

Mendes gostava de namorar mapas e se perder em divagações dignas de artistas. Michelangelo pintara o “Dedo de Deus” dentro da Capela Sistina, mas os verdadeiros dedos dos deuses seriam outros. Dois prolongamentos pareciam buscar ajuda mútua, um prolongamento da Antártida apontava ao norte e um da América do Sul, ao sul. Entre eles, a passagem de Drake marcaria um portão profético dos séculos seguintes, o gelo perpétuo nas imediações de todo o polo sul estaria em vias de derreter.

E o Estado do Rio de Janeiro parecia ter sido esculpido pelo oceano, de forma a ficar de frente para a subida das águas. Cada pessoa sentada diante do mar da Barra, de Leblon ou Ipanema, mesmo com os pés mergulhados em areia escaldante, mesmo com o sol a marcar amanheceres mais à esquerda e anoiteceres mais à direita, cada pessoa a desfrutar as praias cariocas sabe de onde marcham as frentes frias, frentes que choram as lágrimas de um mundo em transformação.

Mendes percorrera seu percurso com o sol da manhã a lhe beijar o rosto, ele oferecera sua face direita ao pedalar por Copacabana, então, ao passar pela UFRJ em direção ao Aterro, o astro rei invernal lhe lambera a nuca. Depois de receber sua missão, ainda em roupas de ciclista, sem tirar a mochila das costas, Mendes retomou a viagem em sentido contrário. Ele percorreu os 35 quilômetros em uma hora, proeza que o hábito lhe permitia realizar sem acusar grande esforço. Porém, a parada na UFRJ, para imprimir e-mails em cartas, lhe tomou tempo semelhante.

Conforme o profetizado, havia milhares de e-mails. Entre eles, um intitulado “Quem acredita em Cronos?” arrancou gargalhadas. Contudo, o estagiário da ONG Futuro Verde sequer o abriu. O Aquecimento Global era coisa séria, portanto, Mendes escolheu títulos mais sérios, como “Alguém precisa fazer alguma coisa” e “Eu faço a minha parte”. Além desses dois, ele imprimiu outras 28 cartinhas eletrônicas, que crianças ao redor do mundo tinham escrito e sido moderninhas para utilizar a inovação tecnológica disponível em diversas universidades. Por mais que não fosse fluente em outras línguas, aquele “Quem acredita em Cronos?”, digitado em espanhol, seduziria para sempre a memória de Mendes.

Embora a pergunta não tenha decorado as paredes internas do Riocentro.

Fim do Capítulo 1

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